Além das margens do setting terapêutico: coterapia como ingrediente de mudança e generalização

“Considerando que a terapia verbal isolada, tal como a conhecemos, nem sempre é suficiente para o bom desenvolvimento da análise e da intervenção sobre determinados casos clínicos, faz-se necessário que nossa prática considere outros settings de atuação… Repensar a prática clínica e inventar novos espaços que permitam maior efetividade do mundo real do cliente é nosso grande desafio.”

(Zamignami, Kovac e Vermes. Editora Paradigma. 2007)

A “tarefa de casa” é parte importante do trabalho na terapia cognitivo-comportamental, é o momento em que o paciente transpõe as habilidades aprendidas na terapia para a sua vida e começa o processo de tornar-se o seu próprio terapeuta.
Entretanto, sabemos que muitos pacientes não aderem à tarefa de casa, seja por dificuldade de enfrentamento e de regulação das emoções, resistência, falta de organização, tarefa não adequada ou incompreendida, entre outros fatores.
Entre inúmeras possibilidades — técnicas, trabalho através da relação terapêutica, mudança de atuação do próprio terapeuta — a co-terapia tem se mostrado altamente eficaz e promissora.
A coterapia é “a clínica de portas abertas” e possibilita mudança, muitas vezes mais rápida e duradoura que a terapia apenas nos consultórios. Esta possibilidade de atendimento dá ao paciente maiores possibilidades de experimentar no dia a dia o que aprendeu na terapia, facilitando, assim, a generalização dos ganhos terapêuticos.
O coterapeuta é um profissional ou estagiário de psicologia escolhido pelo terapeuta principal do paciente para auxiliar em seu processo de mudança. Ao recorrermos à co-terapia, garantimos a correta aplicação das técnicas. Além disso, o co-terapeuta oferece apoio às dificuldades e limites do paciente e, ao mesmo tempo, o encoraja a enfrentar os seus medos e a progredir em suas metas. À medida que o paciente vai progredindo, fica mais independente e necessitar cada vez menos do auxílio do co-terapeuta.
Nos transtornos de ansiedade, geralmente há uma escala hierárquica de enfrentamento de situações geradoras de ansiedade. O coterapeuta, sempre em contato com o terapeuta principal, auxilia o paciente no enfrentamento dessas situações. O objetivo é que o paciente consiga enfrentá-las sem a ajuda do co-terapeuta. Mas isso é sempre feito gradualmente, respeitando o momento do paciente.
A coterapia é indicada em diversos casos, tais como:

  • Transtorno obsessivo-Compulsivo (TOC): o co-terapeuta acompanha os pacientes nas Exposições com Prevenção de Resposta, por exemplo;
  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): o coterapeuta auxilia tanto nas exposições in vivo como imaginária;
  • Depressão: o coterapeuta trabalha ativamente com o paciente na mudança de sua rotina e na inserção de atividades prazerosas em sua vida;
  • Transtorno de ansiedade Social: o coterapeuta acompanha o paciente nas exposições;
  • Transtornos de Personalidade: o co-terapeuta auxilia enquanto funciona como modelo de comportamento e está em contato mais direto com as reações emocionais do paciente em sua vida diária, podendo intervir de modo a apontar a ativação de esquemas e auxiliar o paciente na contestação dos mesmos;

Assim, o uso da co-terapia é indicado, principalmente, quando o caso é grave, o paciente tem dificuldade de fazer a tarefa de casa, evita as situações ameaçadoras e geradoras de medo e ansiedade e/ou não consegue generalizar o que aprende na terapia para o seu cotidiano.

O co-terapeuta deve ser comprometido, sério, dedicado e ético. A ética é um aspecto crucial, já que a co-terapia acontece na casa do paciente, nos ambientes que ele frequenta ou em locais públicos onde o próprio co-terapeuta pode encontrar alguém conhecido.

A experiência clínica demonstra que a coterapia é um ingrediente propiciador de mudanças e uma possibilidade a ser considerada no trabalho com pacientes que não estão respondendo ao tratamento.

Referência

Livro “A clínica de portas abertas: experiências e fundamentação do acompanhamento terapêutico e da prática clínica em ambiente extraconsultório”. Zamignami, Kovac e Vermes. Editora Paradigma. 2007.

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